De Maduro a Kim — A Estratégia do Custo Insuportável

A estratégia do custo insuportável é um conceito de política externa e defesa que busca dissuadir um adversário poderoso aumentando o preço — político, econômico, militar ou diplomático — de qualquer tentativa de intervenção ou mudança de regime. Em vez de competir diretamente em poder militar ou econômico, Estados mais fracos procuram tornar tão alto o custo da ação inimiga que ela se torne indesejável ou impraticável. Essa lógica não é nova, mas ganhou relevância no contexto contemporâneo, especialmente nas relações entre países que desafiam a influência dos Estados Unidos e tentam proteger a própria soberania.

Estados como a Coreia do Norte, mais fracos procuram tornar tão alto o custo da ação inimiga

A essência dessa estratégia consiste em elevar riscos e complicações para o potencial intervencionista. Isso pode ocorrer por diversos caminhos: fortalecimento de alianças com potências rivais, desenvolvimento de capacidades militares assimétricas, criação de custos humanitários e logísticos para qualquer invasão, uso de mecanismos de propaganda e narrativa para gerar desgaste internacional ao agressor, entre outros. Em todos esses casos, o objetivo é o mesmo: tornar a interferência externa uma opção cara demais para ser considerada racional.

Alguns líderes nacionais frequentemente citados nesse debate utilizam variações dessa abordagem para conter ou dificultar ações dos Estados Unidos.

No caso da Venezuela sob Nicolás Maduro, a estratégia do custo insuportável assume várias formas. Uma delas é a militarização da política interna combinada com a construção de lealdades dentro das forças armadas. Isso significa que qualquer tentativa de intervenção teria de enfrentar não apenas resistência civil, mas também um aparato de segurança profundamente enraizado. Soma-se a isso a busca por alianças econômicas e militares alternativas, especialmente com potências que se posicionam de maneira crítica à política externa norte-americana. Ao estreitar laços com esses parceiros, o governo venezuelano gera custos diplomáticos adicionais para qualquer país que considere intervir. Uma ação militar, por exemplo, poderia provocar tensões internacionais indesejáveis, impactando não apenas a segurança regional, mas também fluxos econômicos globais.

A Venezuela combina militarização da população com acordos e alianças dentro das forças armadas

Outra dimensão estratégica é a criação de interdependências econômicas e energéticas. Ao diversificar compradores de petróleo e permitir a entrada de investimentos de países de fora da esfera de influência dos EUA, o governo reduz a eficácia de sanções e demonstra que o país possui alternativas para sua sobrevivência econômica. Isso não impede pressões, mas torna mais difícil alcançar seus resultados de forma rápida ou barata.

Já a Coreia do Norte, sob Kim Jong-un, representa talvez o exemplo mais claro de aplicação extrema da estratégia do custo insuportável. Diferentemente de outros países, o regime norte-coreano aposta na dissuasão nuclear como núcleo de sua estratégia. A capacidade — ainda que limitada — de infligir danos significativos a aliados dos Estados Unidos ou ao próprio território norte-americano transforma qualquer tentativa de intervenção em uma opção arriscada. Isso cria um efeito dissuasório poderoso: mesmo que Washington possua superioridade militar esmagadora, o risco de um conflito devastador é visto como alto demais.

Além disso, a Coreia do Norte reforça a estratégia por meio de ações imprevisíveis, testes militares e retórica agressiva. Essa postura aumenta a incerteza calculada: quanto mais imprevisível o ator, maior o receio de que qualquer intervenção desencadeie reações descontroladas. O regime também depende de alianças ou tolerâncias estratégicas de grandes potências regionais, que, embora não apoiem integralmente suas práticas, têm interesse em evitar instabilidade ou guerras na península.

Outros governos que buscam limitar o alcance da política externa norte-americana adotam variantes dessa mesma lógica: transferir o campo de decisão para um cenário em que os custos para o adversário ultrapassem os benefícios esperados.

Em suma, a estratégia do custo insuportável funciona como uma ferramenta de sobrevivência estatal em um mundo assimétrico. Ao tornar a intervenção uma opção irracional, Estados mais fracos conseguem preservar espaço político, ainda que enfrentem pressões intensas. É uma estratégia que se baseia menos na força absoluta e mais na habilidade de manipular riscos, alianças e percepções, elementos centrais da geopolítica contemporânea.

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